Desenvolvimento humano: questionável mundo novo
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Apesar de ter sido escrito há mais de 80 anos, “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, apresenta uma história futurista que parece retratar os dias atuais. Ela descreve uma sociedade em que seus habitantes passam por um desenvolvimento biológico e psicológico para que vivam em harmonia com as regras sociais rígidas, onde o grande objetivo é manter a ordem, mesmo que para isso todos passem por uma lavagem cerebral, eliminando qualquer senso de individualidade ou de consciência crítica sobre a realidade. Hoje, a necessidade de reflexão urge. Nunca tivemos tantas informações disponíveis, mas o que realmente estamos fazendo com elas?

Leonardo da Vinci, Albert Einstein, Nikola Tesla, Marie Curie e Judit Polgar têm em comum um quociente de inteligência ou quociente intelectual (QI) muito acima da média populacional, além do fato de terem feito a diferença na História, cada um em sua área.  Criado no início do século XX, graças aos trabalhos desenvolvidos pelo pedagogo e psicólogo francês Alfred Binet, o teste de QI é o modo mais usado para “quantificar” as habilidades cognitivas de um indivíduo.  A escala de QI, que geralmente vai de 0 a 200, pode passar de 250 quando falamos de alguns gênios.

No caso de crianças, leva-se em consideração a faixa etária na qual estão inseridas. E foi este ponto que me chamou a atenção em um livro lançado no final de 2019, denominado “La Fabrique du Crétin Digital” (A Fábrica de Cretinos Digitais) do neurocientista Michel Desmurget, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França, onde ele apresenta, com dados concretos e de forma conclusiva, que os dispositivos digitais estão afetando negativamente o desenvolvimento neural de crianças e jovens. “Simplesmente não há desculpa para o que estamos fazendo com nossos filhos e como estamos colocando em risco seu futuro e desenvolvimento”, alerta.

Desmurget afirma que as evidências são palpáveis, pois já há um tempo que testes de QI têm apontado que as novas gerações são menos inteligentes que anteriores. Os “nativos digitais” são os primeiros filhos a ter QI inferior ao dos pais. Esta tendência foi documentada e registrada em muitos países como Noruega, Dinamarca, Finlândia, Holanda, França, entre outros, demonstrando que os principais alicerces da nossa inteligência como a linguagem, a concentração, a memória e a cultura (definida como um corpo de conhecimento que nos ajuda a organizar e compreender o mundo) estão sendo afetados. Em última análise, esses impactos levam a uma queda significativa no desempenho acadêmico.

Algumas causas são claramente identificadas no comportamento das crianças e estão influenciando a maturação cerebral, segundo o neurocientista, como por exemplo, a diminuição da qualidade e quantidade das interações intrafamiliares, essenciais para o desenvolvimento da linguagem e do emocional. A redução do tempo dedicado a atividades enriquecedoras como a música, a arte, e a leitura reflexiva. A baixa qualidade do sono. Além da superestimulação da atenção, o sedentarismo excessivo, entre outras.

Defendo, sou um entusiasta e ratifico que a revolução digital é fundamental e tem que evoluir. A tecnologia digital deve ser uma ferramenta melhor entendida no arsenal pedagógico dos educadores. Precisamos de um projeto estruturado que utilize softwares e algoritmos para promover a transmissão do conhecimento, usando melhor os dados, apoiando o desenvolvimento de uma cultura analítica. Paralelamente devemos evitar usos apenas recreativos e o frenesi da auto exposição inútil nas redes sociais. Não podemos glorificar os influenciadores. Não devemos compartilhar o radicalismo.

O teste de QI está longe de ser uma unanimidade, pois concordo com os argumentos dos críticos desse método, onde exercícios puramente lógicos exploram, em sua maioria, apenas as habilidades racionais, não correspondendo à totalidade da inteligência humana. Porém, a queda no QI não deixa de ser preocupante, principalmente em um momento que chamamos a atenção para o desenvolvimento da inteligência artificial e todos seus impactos.

A longevidade na expectativa de vida e os ciclos cada vez mais curtos realçam as diferenças dos comportamentos geracionais. Atualmente convivemos com várias gerações como Baby Boomers, X, Y (millennials), Z (centennials) e a mais recente, a Alpha. A complexidade da comunicação em um mundo dividido entre esses grupos tão diferentes, com cargas de experiência e vivência, e de personalidades conflitantes, nos obrigam a procurar adequações aos novos tempos e as demandas que surgem, para que de forma perspicaz, consigamos entender todos os perfis com eficiência.

Longe de querer afirmar o que é bom ou ruim, melhor ou pior, o desenvolvimento tecnológico e a digitalização da sociedade modificaram os padrões e os hábitos, produzindo mutações nos costumes e nas práticas de como consumimos informações, de como nos comunicamos, de como nos socializamos e nos entendemos. Os desafios de Huxley não são maiores ou menores que os contemporâneos, pois onde existem super-vilões, existirão super-heróis.

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Marcelo Molnar

Sobre o autor

Marcelo Molnar é sócio-diretor da Boxnet. Trabalhou mais de 18 anos no mercado da TI, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação. Coautor do livro "O Segredo de Ebbinghaus". Criador do conceito ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de relações emocionais. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em monitoramento e análises nas redes sociais.

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