São as convicções e não as fake news

“É a economia, estúpido!” A frase que virou “case” de marketing eleitoral nos Estados Unidos na disputa de 1992 soa como um dogma nos dias de hoje, mas parece cada vez mais distante nas sondagens de opinião pública.

Todo o mês faço a promessa de não voltar a falar de Fake News. Mas é impossível cumprir. O volume de matérias sobre esse tema nas mídias tradicionais, evocando nomes de peso, torna um assunto tecnicamente ultrapassado em centro das atenções. Desde o início de 2016 venho trabalhando profundamente na evolução desta temática. Começou intitulado como Pós-Verdade, mas ganhou corpo mesmo como Fake News graças ao maior garoto propaganda que poderia conseguir: Donald Trump. Mas outros personagens de peso entraram na campanha das análises e divulgação.

Já disse algumas vezes que Fake News é uma Fake News, por mais paradoxal que possa parecer. Não quero ser simplista na reflexão deste fenômeno, pois seria uma forma leviana de analisar um problema complexo. Será necessário a imprensa especializada, os estudiosos acadêmicos, os especialistas em comportamento humano e algum algoritmo que venha a ser desenvolvido para desmistificar essa visão plastificada, planificada para eliminar a espuma. Aparentemente existe muito esforço para olharmos em direção ao lado errado. O ponto central deste problema está nas nossas convicções individuais.

As convicções – este sentimento de certeza, constitui o centro de minha ponderação. Ter determinadas convicções é positivo, mas não todas. Muda-se muito ao longo de uma existência. Não fosse isso estaríamos condenados ao conservadorismo. Algumas convicções essenciais, no entanto, permanecem inalteradas. Elas são formadas a partir das nossas experiências, ou mesmo por aquilo que ouvimos ou observamos. Por isso, são bastante pessoais. Enquanto uma pessoa acredita piamente em algo, outra pode ter uma opinião totalmente diferente, já que passou por momentos diferentes ao longo da sua vida. Acontece que quando estamos afastados da nossa essência, quando estamos adormecidos para nosso poder pessoal, somos levados a criar nossas convicções baseadas no que os outros pensam. E nesse mundo atual de compartilhamentos e possibilidades de relacionamentos cruzados fica cada vez mais difícil e complexo fazer julgamentos corretos.

Paralelamente, as soluções propostas para acabar com as Fake News parecem tão utópicas como imaginar que os seres humanos deixarão de mentir. Ou, como se fosse possível, por medida de lei, proibir a veiculação e distribuição de piadas e memes. Parece que podemos invocar uma entidade espiritual ou religiosa e decretar pecado mortal o ato de iludir os amigos, familiares e conhecidos. Por fim, como exemplo de um poder autoritário, instituir a pena de morte para aquele que compartilhar uma informação não comprovada. Particularmente aqui no Brasil, devido à proximidade da disputa eleitoral, deseja-se regras para impedir falatório calunioso em relação aos candidatos, como se nesse universo os discursos e declarações dos políticos fossem cristalinos, imaculados e cem por cento verdadeiros. Nunca foi assim e nunca será!

Mas a pergunta que não quer calar é: Como conviver com regras, normas ou leis que não descambem na censura? Outrora tão debatida e execrada, a censura parece agora tolerável. Para contribuir, estamos vivenciando uma estratégia de censura até então inédita. A Censura da Abundância. Somos bombardeados por todos os lados de dados, mensagens, imagens, vídeos, etc, mas está cada vez mais difícil distinguir a veracidade das informações.

Atualmente é difícil separar causas de consequências, pois o mundo está ficando muito chato. Crescemos com padrões acreditando que muitas coisas eram normais. Mas as mudanças e evoluções tecnológicas estão destruindo as lógicas. Estamos sempre correndo. Não temos tempo adequado para nossas próprias considerações. Nos sentimos pressionados para sermos mais eficientes e cometemos o erro de terceirizarmos nossas opiniões.

A questão é que não importa qual convicção é verdadeira ou falsa. O que importa é saber qual é a mais fortalecedora, pois sempre iremos encontrar pessoas, coisas ou situações que poderão apoiar nossas convicções, tornando-as cada vez mais fortes e consistentes. Mas isso não quer dizer que estamos certos. Somos nós quem definimos nossas convicções. Precisamos pensar em quais são nossas convicções e onde elas estão nos levando. Elas estão contribuindo para uma experiencia positiva? Quando falamos em Fake News parece que estamos colocando nossos potenciais erros nas costas dos outros. Encontramos o “bode na sala”. Sinceramente, não acredito nisso. Odeio discurso de autoajuda. Mas precisamos realmente parar de encontrar o culpado e ponderar a razão de estarmos onde estamos. Nossas convicções devem ter um efeito decisivo sobre o nosso comportamento e nossas ações, a fim de fazermos a diferença diante daqueles que não pensam como nós. Somos responsáveis pelo que sabemos e parcialmente pelo que não  sabemos. Nestes novos tempos, não basta apenas a atualização. É necessário equilíbrio, critério e raciocínio para nossas decisões perante as informações que recebemos. E para isso precisamos nos aprofundar, ir mais além. Não basta ler apenas os títulos das matérias, dar atenção para as propagandas baratas ou para as chamadas da TV ou rádio. Quanto mais se influenciar nas nossas redes sociais…

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Marcelo Molnar

Sobre o autor

Marcelo Molnar é sócio-diretor da Boxnet. Trabalhou mais de 18 anos no mercado da TI, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação. Coautor do livro "O Segredo de Ebbinghaus". Criador do conceito ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de relações emocionais. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em monitoramento e análises nas redes sociais.

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