Fake news e a síndrome de Procusto
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Procusto é um personagem da mitologia grega que em sua casa, tinha uma cama de ferro do seu exato tamanho, para a qual convidava todos os viajantes a se deitarem. Se os hóspedes fossem demasiados altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, e os que tinham pequena estatura eram esticados até atingirem o comprimento suficiente. Uma vítima nunca se ajustava exatamente ao tamanho da cama porque Procusto, secretamente, tinha duas camas de tamanhos diferentes.

Da mesma forma que o personagem mitológico acima, todos nós temos um parâmetro para medir e entender as informações conforme nossas convicções e nossos interesses. Cortamos dados e detalhes que não nos interessa, e alongamos e recheamos com ideias e interpretações as informações que nos deixam confortáveis. Buscamos uma coerência impossível de atos, opiniões e pensamento. Mas normalmente, não temos uma única régua de entendimento. Oscilamos entre a razão e a emoção.

A evolução tecnológica, a cada dia, amplia o volume de notícias, informações e opiniões que recebemos. Humanamente somos incapazes de absorver, analisar e entender esse enorme volume de conteúdo. As mídias tradicionais (jornais, revistas, TVs e rádios) estão competindo com dezenas de outras fontes. Produtores profissionais e amadores possuem as mesmas ferramentas. Confundimos humor verdadeiro com a veracidade das notícias sérias. É impossível checar todos os fatos. O excesso produz um sentimento de ausência.

Paralelamente, reza a lenda que Dario III, rei da Pérsia, havia cometido vários erros de estratégia de guerra quando derrotado por Alexandre, o Grande. Quem costumava informar o rei do possível fracasso de suas estratégias era um sujeito chamado Charidemos. Dario III teria mandado matá-lo por trazer más notícias. Outro que, dizem, costumava temer os mensageiros era Gengis Khan. Quando a mensagem era ruim, Gengis Khan não titubeava em matar o mensageiro na hora.

Parece que a história se repete. O grande número de mensageiros ampliou exponencialmente o campo de guerra dos conteúdos, fracionando as visões e polarizando as opiniões. Somamos a isso o fato que os radicais fazem muito barulho e dão ilusão que são um número maior que a realidade. Paradoxalmente concluímos que temos poucos caminhos. A onda de globalização acabou produzindo uma resposta separatista. Os polos estão se encontrando.

Precisamos sair desta arapuca e desarmar essa bomba relógio. A criatividade humana e o potencial das ferramentas de Inteligência Artificial têm que trabalhar com conjunto, ao invés de discutirmos a simples substituição dos empregos. Não podemos pensar no tempo como uma linha única sequencial, mas como uma teia emaranhada de opções diversas. Para o real entendimento do momento que vivemos, precisamos ler além dos títulos das notícias, ou acreditar em uma reflexão de 140 caracteres. Menosprezar o impacto desta nova realidade, já se comprovou um erro.

Enfim, Procusto representa, em regra, a intolerância do ser humano em relação ao seu semelhante. Nesse e em outros sentidos dicotômicos, o mito já foi usado como metáfora para criticar tentativas de imposição de um padrão em várias áreas do conhecimento, como na economia, na política, na educação, na história, na metodologia científica, na medicina, na administração, nas ciências sociais e na sociologia eleitoral, entre tantas outras. Não adianta culpar a cama e muito menos matar o mensageiro.

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Marcelo Molnar

Sobre o autor

Marcelo Molnar é sócio-diretor da Boxnet. Trabalhou mais de 18 anos no mercado da TI, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação. Coautor do livro "O Segredo de Ebbinghaus". Criador do conceito ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de relações emocionais. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em monitoramento e análises nas redes sociais.

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