Insatisfação e sobrecarga de informações (31/01/2018)

Nos últimos dias estamos acompanhando as mudanças anunciadas pelo Facebook que poderão gerar novas demandas para a mídia tradicional e profissional. Segundo a rede social, estas alterações visam diminuir a disseminação de conteúdos noticiosos. Isso é bom? Alguns dizem que sim, porque as informações veiculadas trazem uma carga negativa para o leitor. Outros dizem que não, pois aumentará a possibilidade da divulgação das tão propaladas “Fake News” (notícias falsas). O ponto é: estamos satisfeitos com a quantidade e qualidade de informações que recebemos? Minha análise é que não… Estamos muito insatisfeitos.

Tecnicamente, a insatisfação é um sentimento interior que manifestamos quando nossas expectativas não são atendidas. Este tipo de sentimento mostra um nível de desencanto pessoal causado pela frustração de não realizar nossos desejos. Trata-se de um sentimento humano contextualizado em aspectos bem específicos, por exemplo, quando uma pessoa sente que seu trabalho e esforços não são reconhecidos. Da mesma maneira, esse sentimento também acontece nos relacionamentos pessoais quando a atenção aos defeitos é maior que a dedicada às virtudes. A infelicidade se vê marcada pelo profundo grau de insatisfação pessoal com o presente, assim, quando fazemos um balanço existencial e nos sentimos distantes de onde realmente gostaríamos de estar. A insatisfação não é negativa por si só, mas pode tornar-se crônica. Isto é, acontece quando nos acostumamos com a situação, gerando um desalinhamento entre as expectativas e os resultados alcançados.

Do ponto de vista positivo, o sentimento de insatisfação oferece uma informação valiosa sobre a necessidade de mudança. Por isso, a importância da consciência de como nos sentimos. Entretanto, a insatisfação se torna crônica como consequência do perfeccionismo ou da ambição sem limites quando não atingimos nossos desejos e necessitamos nos adaptar à realidade. Existem alguns sinais que ajudam a identificar a insatisfação: a queixa constante e o pensamento negativo são duas atitudes próprias quando há o desalinhamento entre o que temos e o que aspiramos.

Não bastasse isso somos bombardeados por informações de todos os tipos. Isso afeta nossa mente e nosso desempenho. Vivemos num mundo digital cada vez mais conectado. Usamos diversos aparatos tecnológicos que nos possibilitam conexão a tudo e a todos. Esta sobrecarga de informação, ou Síndrome de Fadiga por Informação (IFS*) ocorre quando somos submetidos em excesso à mídia e à tecnologia. Infelizmente, nosso cérebro tem dificuldade em manter-se ativo com tudo que nos alimenta. A quantidade de energia necessária para processar nos limita o consumo e a absorção todas essas informações. Os efeitos de tudo isso podem ser dores de cabeça, esgotamento físico e psicológico. Esses efeitos são responsáveis por decisões erradas e/ou ações equivocadas. Não conseguimos nos desligar. É inevitável nos sentirmos insatisfeitos com esse processo.

Vivemos um paradoxo. Estamos insatisfeitos e sobrecarregados. E as recentes mudanças parecem piorar esse cenário. Não faltam questões e dúvidas nas áreas da economia (bitcoins), da política (eleições), da saúde (febre amarela), da segurança (greves e chacinas), do emprego (inteligência artificial), e por aí vai… Tenho que concordar que o noticiário traz uma carga negativa. Mas o que fazer? Nos alienar? Fugir? Radicalizar e ouvir apenas o que nos agrada? O fato é que parece existir uma seleção natural às avessas. O que é “sensacional” se multiplica e o que exige reflexão desaparece. Nesse mundo de abundância precisamos de filtros. Estamos “infobesos” (desculpe a neologia) e da mesma forma que na alimentação, precisamos de uma nova educação informacional.

*“Information Fatigue Syndrome (IFS): What it is and how it affects you”, do Natural News.

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Marcelo Molnar

Sobre o autor

Marcelo Molnar é sócio-diretor da Boxnet. Trabalhou mais de 18 anos no mercado da TI, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação. Coautor do livro "O Segredo de Ebbinghaus". Criador do conceito ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de relações emocionais. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em monitoramento e análises nas redes sociais.

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